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Uma das grandes discussões entre ateus e teístas (e também entre cientistas e religiosos em geral, muito embora o primeiro grupo, neste caso, seja quase sempre composto por cientistas ateus) diz respeito à suposta incompatibilidade entre religião e ciência sendo que esta discussão normalmente se fundamenta sobre uma suposta incompatibilidade entre razão e , bem como na confiabilidade de como cada um dos campos adquire os seus ditos conhecimentos.

Todavia, normalmente os ateus avançam além de simplesmente afirmarem a incompatibilidade, mas utilizam o seu ponto de vista nesta discussão como uma objeção ao teísmo, alegando que a razão é incompatível com a fé e, portanto, é irracional aceitar a última.

Apresentação Edit

A objeção é normalmente apresentada sobre o forte apelo emotivo do mundo moderno que, estando cheio da ciência, tem a razão como uma das coisas mais valiosas do ser humano. Ao desclassificar a fé como oposta a razão, portanto, um ateu consegue impelir emotivamente ao seu ouvinte a rejeição desta e a busca pela razão. Como a aceitação da existência de Deus muitas vezes depende de fé para que seja mantida (mesmo que possa ser determinada por pura razão), o ouvinte pode sentir-se obrigado a abandoná-la e, por fim, voltar-se para alguma forma de agnosticismo ou mesmo ateísmo.

Avaliação Edit

Muitos livros têm sido publicado por teístas defendendo a relação entre fé e razão como sendo perfeitamente compatíveis. Em face das críticas já realizadas, conclui-se que tal objeção possui uma série de problemas.

Em essência, tanto fé quanto razão são formas de se chegar ao conhecimento, só que de formas diferentes e com níveis de confiabilidade diferentes - especialmente no que diz respeito a espalhar o conhecimento para além do indivíduo. A razão fundamenta-se sobre evidências existentes e procura entender para onde que elas apontam segundo a melhor (ou, pelo menos, a mais aceita) interpretação. Já a fé procura dar um salto entre uma base e a conclusão, sendo que esta base pode ser tanto evidências que não necessariamente apontam à conclusão (ou porque são insuficientes, ou porque podem ter mais de um significado) como uma afirmação totalmente sem sentido, como a simples vontade de crer sem uma causa racionalmente explicável. Desta forma, é inegável que ambos não são idênticos ou tampouco parecidos, mas isso não significa que sejam opostos, i.e. incompatíveis um com o outro e que quando um está presente, o outro necessariamente não ou não deve estar.

Para que um dado x seja realmente incompatível com y, ele precisa ser logicamente oposto a este (-x) ou então a sua essência seja oposta a deste (-[x]). No caso da razão e da fé, observa-se que ambos não são logicamente opostos (um não é o inverso do outro). Todavia, quando analisa-se a essência de ambos ("como a razão e a fé trafegam"), nota-se que ambos possuem a possibilidade de "desviar-se" de sua essência original e, enquanto na razão este desvio é prejudicial a ela própria mas benéfico para o par, no caso da fé é somente prejudicial.

A fé possui a característica de ser utilizada de três maneiras: na presença de evidências segundo um pensamento indutivo, onde ela serve de complemento para estabelecer-se, na mente de um indivíduo, a veracidade de uma conclusão mesmo que não haja as devidas evidências suportando-a (esta é a chamada "fé racional"); no quesito de esperança como, por exemplo, quando um indivíduo põe sua fé em Deus de que Ele irá curá-lo de uma doença (neste caso, as evidências realmente não importam); e na chamada "fé cega" que consiste numa fé nascida e mantida sem a menor importância para as evidências significativas mesmo quando estas contradizem a fé (quando alguém "crê em Deus porque quer" ou crê que a Terra é plana apesar do já estabelecido conhecimento da esfericidade desta). Destes três tipos, apenas o primeiro é teoricamente aceito em ciência, enquanto os outros dois são rejeitados.

A razão pode ser divida em duas maneiras: no raciocínio dedutivo e no indutivo. No primeiro, a presença de fé é nula e as conclusões são totalmente fundamentadas nas evidências; já no outro caso, a razão não domina sobre a análise e faz-se necessária a presença da fé para que a conclusão possa ser aceita, uma vez que as evidências disponíveis não corroboram com 100% de certeza que a conclusão está correta. Ambos os "tipos" de razão são aceitos na ciência, e encontra-se no segundo o entendimento do quão auto-contraditórios ateus cientistas são ao negarem a fé.

Em analisar os comportamentos que fé e razão podem ter através dos seus "tipos", nota-se a ponte existente entre a fé racional e o raciocínio indutivo, onde um é a essência do outro e o segundo não existe sem o primeiro. Quando trata-se de partes da ciência como as leis da termodinâmica, evidencia-se que a ciência depende da fé racional para existir. No exemplo mencionado, não existe evidência de todo cm² do Universo que corrobore a tese de que "no Universo, a energia se conserva", mas tão somente em alguns experimentos na Terra. Todavia, isto é afirmando e, não havendo evidência real para isso, conclui-se em tratar de um raciocínio indutivo e, uma vez defendido, baseado na fé racional (racional, neste caso, porque há algumas evidências que indicam a veracidade desta conclusão). Da mesma maneira ocorre em muitas outras áreas da ciência, onde a fé racional claramente se manifesta como requerimento para uma ciência funcional. Mais notavelmente, uma vez que se assume a conclusão por fé, surgem muitas outras explicações para muitos outros eventos que fazem sentido, o que indica que a fé racional presente no raciocínio indutivo ajudou como base para outras explicações científicas que poderiam nunca ter surgido na ausência daquela.

Conclusão Edit

Desta forma, é inevitável concluir que não há incompatibilidade entre a razão e a fé, mas entre alguns tipos de fé.

Resumindo esta resposta, tem-se:

  1. A razão (pensamento racional) pode ser dividida em, no mínimo, dois grupos:
    1. Raciocínio dedutivo
    2. Raciocínio indutivo
  2. Ambos são utilizados em ciência e ambos são igualmente válidos - ambos são razão.
  3. A fé pode ser divididad em, no mínimo, três grupos:
    1. Fé racional - a fé que é baseada em evidências onde ela serve de complemento para que se chegue a uma conclusão à partir das evidências;
    2. Fé de esperança - a fé que, não estando relacionada à questão das evidências, fundamenta-se na esperança em algum objetivo;
    3. Fé cega - a fé trata de coisas que requer evidência sem considerá-las, sustenta-se sobre causas inaceitáveis e recusa-se a terminar injustificadamente frente a forte evidência contrária;
  4. Raciocínio indutivo fundamenta-se sobre a probabilidade de uma conclusão estar correta baseado em evidências que não necessariamente a estabelece como correta.
  5. Dessa forma, é necessário fé para que se aceite a conclusão como um fato.
  6. Esta fé e do tipo fé racional, uma vez que é fé baseada em evidências já existentes.
  7. Mas fé racional é um tipo de fé.
  8. Logo, não há incompatibilidade entre fé e razão, mas entre alguns tipos de fé e razão.

O que pode ser unido a:

  1. Raciocínio indutivo esta presente na ciência e esta praticamente não existe sem aquela.
  2. Mas raciocínio indutivo requer fé racional.
  3. Logo, grande parte da ciência depende e está fundamentada em fé.
  4. Logo, não há incompatibilidade entre fé e ciência, mas entre alguns tipos de fé e ciência.

Referências

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